Mentes insanas

por Escreva Bem on 09/08/2008

A data não poderia passar em branco. Nessa véspera de dia dos pais gostaria de deixar registrada uma pequena reflexão sobre duas obras bem diferentes e distantes uma da outra, mas que possuem um fio interligando-as; refiro-me a Édipo Rei, de Sófocles, e Crime e castigo, de Dostoiévski. As obras têm temas diferentes, mas abusam do psicológico.

A peça de Sófocles, que viveu há mais de 2.400 anos, tem um enredo que defende a tese que cada um de nós tem um destino a cumprir. Quando se termina de ler a primeira parte da trilogia tebana, tem-se a impressão que não há nenhuma possibilidade de fugir do destino que nos está fadado. Todo o ódio e desejo de vingança que permeavam as falas do rei de Tebas parecem voltar contra ele mesmo quando Édipo começa a ver com mais clareza que toda a desgraça que pairava sobre seu reino era fruto de suas próprias atitudes, pois matara seu antecessor que também era seu pai e, como se já não fosse o bastante, desposara sua mãe tendo com esta 4 filhos. Um crime pequeno e um castigo sem proporções.

Para Freud, o Complexo de Édipo verifica-se quando a criança atinge a segunda infância e dá-se então conta da diferença de sexos, tendendo a fixar a sua atenção sexual nas pessoas do sexo oposto no ambiente familiar. Freud baseou-se na tragédia de Sófocles, Édipo Rei, chamando Complexo de Édipo à preferência velada do filho pela mãe, acompanhada de uma aversão clara pelo pai.

Ninguém deixará de reconhecer em Crime e Castigo um dos pontos mais altos em que Dostoievski, tão artisticamente, soube transpor para a literatura o seu Complexo de Édipo. O assassino Raskólhnikov é também um duplo do próprio autor. O seu caráter sombrio, orgulhoso, a sua insociabilidade, a sua inteligência, tudo isso pertencia ao escritor russo. A velha agiota é a réplica do avarento pai de Dostoiévski, que lhe negava o dinheiro que tão necessário lhe era no princípio da sua carreira e da entrada no mundo social. O drama de Raskólhnikov foi o drama de seu criador. Na realidade, Dostoiévski não matou o pai, mas teria lhe desejado a morte, teria pensado que mais valia que o velho fosse mais generoso para com ele, jovem que era e que tinha uma obra a realizar... Mas, nem só por obras peca o homem, peca também por palavras e pensamentos. Dostoiévski teria pecado em pensamento e, para a sua sensibilidade, isso já seria suficiente para assombrar-lhe a consciência durante toda a sua vida...

Certamente que nem só o drama íntimo do escritor, o seu Complexo de Édipo, teria servido de fundo à temática e fabulação de Crime e castigo.

O que se percebe claramente tanto em Édipo quanto em Raskólhnikov é a preferência pelo sofrimento como forma de penitência. Para ambas personagens nada neste mundo era capaz de justificar os crimes cometidos; em Crime e castigo vê-se uma bela definição para as personagens “A dor, Rodion Románovitch, é, de fato, uma coisa grandiosa”.



P. S – Quem já teve o prazer de ler esses dois clássicos da literatura concordará que essa citação é uma bela definição de Édipo e de Raskólhnikov "...matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas, anda por aí como um anjo pálido".

2 acharam isso:

Ingrid disse...

Uma bela aula. ;)

Escreva Bem disse...

Obrigado, eu como professor fico feliz...

=)